Variedades

A cidade e as águas

por Léo Coutinho


Uma aula de história, geografia e urbanismo para entender porque São Paulo é vítima das enchentes


Não foi à toa que Manoel da Nóbrega e José de Anchieta escolheram o pequeno morro, entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, para erguer sua escola de jesuítas (o hoje famoso Pátio do Colégio)

A Avenida Paulista, o ponto mais alto da capital paulista, em típico dia de chuva: ponto de partida das enxurradas

Durante uma das chuvas que vem encharcando São Paulo nos finais da tarde, uma amiga deu o alarme na internet: “O Itaim Bibi já está alagado! Imagine os outros bairros como estão...”. O caso dela é típico do paulistano que, apesar de bem nascido e bem criado, não tem noção do que é a própria cidade. É, talvez, um fenômeno da geração que foi criada numa cidade já toda construída, e que por isso não percebe os aspectos geográficos de onde mora.

Como eu converso muito com gente antiga, acho graça e gosto de ouvir coisas do tipo: “Eu tinha uma namorada que morava naquele morro em frente ao hipódromo de Cidade Jardim”. Para os mais velhos, o Jockey Club fica na Rua Boa Vista e o bairro com aqueles casarões que a gente chama de Cidade Jardim era só um morro recém-descoberto pelo mercado imobiliário. As ruas eram de terra e ainda havia horizonte. Por isso eles reconhecem e sabem onde é alto, onde é baixo, onde passam os rios e os córregos.

Para entender a cidade e conhecer os melhores bairros, sem dar bola para modismos da especulação imobiliária, é preciso acompanhar a história de seu crescimento. Sabe-se que tudo começou com a construção de um colégio jesuíta, onde hoje fica o Pátio do Colégio; e é claro que não foi à toa que o Manuel da Nóbrega e o José de Anchieta escolheram o local, que por sinal, era perfeito: o topo de um morrote entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí. Quer dizer: acesso fácil à água de beber, banhar, cozinhar, navegar, pescar e plantar nas terras férteis do vale, mas no alto, protegidos das cheias e dos ataques dos índios.

Depois de quase 200 anos, quando finalmente a vila começa a crescer e se transformar em cidade, os lugares altos continuavam sendo os preferidos. Embolando a cronologia para ficar no centro expandido, lembro do Bixiga, Bela Vista, Perdizes, Pacaembu, Santa Cecília, Higienópolis. Este último, aliás, dizem que foi batizado assim por ter acontecido logo após o primeiro alagamento do rico Campos Elíseos, que se por um lado era bom por ser plano e ficar próximo da estação de trem, revelou-se mau negócio por alagar e espalhar doenças pela água parada. Daí que todos queriam um bairro higiênico.

O auge – literalmente – da distinção em morar veio no fim do século 19, com a abertura da Avenida Paulista. No ponto mais alto da cidade e projetada por engenheiros destacados, entre eles o uruguaio Joaquim Eugênio de Lima, foi a primeira via asfaltada de São Paulo e havia um gabarito rígido para construção das moradias, que assim tornaram-se todas palacetes.


A Rua Brigadeiro Haroldo Veloso, no Itaim Bibi: crescimento desordenado e área de várzea resultam nas enchentes

Basta conhecer a cidade para entender o que acontece com ela em dias de temporal

Quando o progresso dobrou a serra em direção ao rio Pinheiros, surgiram novos bairros, como Cerqueira César, ainda imune às enchentes, mas que, em compensação, sofre com as corredeiras que se formam em dias de chuva forte. Se a gente imaginar que essa água toda desce o morro da Paulista em direção à várzea do Pinheiros – este que por sua vez também enche e deixa de ser absorvente – entende porque o Jardim Europa e o Itaim Bibi são os primeiros a transbordarem quando chove: são e sempre foram brejos, pântanos. O primeiro, que ainda teve o privilégio de ser planejado e contar com vasta área permeável, sofre menos. Mas o outro, que cresceu na base do improviso e quase não tem área verde, sofre mais.

A gente já deveria ter aprendido isso faz tempo, mas, inacreditavelmente, permanece insistindo nos erros. O Jardim Pantanal, que está alagado há dois meses, carrega a dica no próprio nome. Porém, ninguém que mora lá contratou um corretor de imóveis e vacilou entre as melhores alternativas antes de decidir pelo bairro. Simplesmente se arranjaram como puderam e merecem a solidariedade da sociedade e atenção especial do Poder Público. Já quem decidiu investir em imóveis na região da Berrini – que é um dos mais recentes atentados à nossa cidade, prova cabal da sanha financeira do mercado imobiliário, que constrói sem planejar nem respeitar a natureza –, tem mais é que saltar do jipão blindado, molhar as canelas e voltar para o quadragésimo andar do prédio de escritórios a pé, já que aquelas ruazinhas bucólicas não foram feitas para tantos carros – e que não se esqueçam de botar o chapéu de burro e sentar de castigo olhando para um canto de parede até a chuva passar.

Blog do Léo Coutinho


A Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini: exemplo cabal da sanha financeira do mercado imobiliário



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