Cultura
Jazzmasters vol. 2
por Gabriel Rocha Gaspar, redação ONNE
Madonna que espere: seu DJ preferido veio ao Brasil lançar a coletânea Jazzmasters vol. 2
Quem ouve o programa Jazzmasters assim, meio de sopetão, na rádio Eldorado pode ficar confuso. Isso porque, ao contrário do que a alcunha possa sugerir aos mais conservadores, trata-se um espaço de mistura e experimentação musical, em que o velho convive com o novo, sem entraves nem preconceitos. Ouve-se black music clássica misturada ao dance; o soul abre alas para o house; o disco prepara o palco para o hip hop. É como se o ouvinte fosse recebido pelos anfitriões Paulo Mai e Sérgio Scarpelli para, descompromissadamente, ouvir música na sala da casa deles.
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Sérgio Scarpelli e Paulo Mai (Foto: Ricardo Infante) |
Neste espírito relax, a dupla lançou sua segunda coletânea com as faixas mais tocadas (e comentadas) do Jazzmasters. A festa rolou no Museum, em São Paulo e, embora o público não tenha sido estrondoso (R$ 250 para sorrir era a conta), o som foi, comandado por Stéphane Pompougnac, DJ residente do badalado restaurante Hotel Costes, em Paris. “Era o sonho trazer o Stéphane para tocar nesta festa”, conta Mai. “Ele já havia vindo para o Brasil, mas só tinha feito eventos superfechados. Esta é a primeira vez que toca em uma festa aberta”.
O desembarque do homem por aqui é mais do que oportuno: além de ter uma faixa no disco – “Morenito”, um house com tons de bossa nova e acid jazz –, ele lança no Brasil seu primeiro álbum de gravações originais, Living on The Edge (Pschent lá fora, Rob Digital por aqui). Scarpelli conta que “estava ouvindo o disco dele direto. Nós somos o único programa do rádio brasileiro que toca a produção original dele. Às vezes, ele aparece em uma coletânea ou outra, ou é ouvido numa festa. Mas sempre remixes, ninguém toca o trabalho dele, além de nós. Trazê-lo era um sonho”, disse, parafraseando o parceiro.
O sonho não poderia ser realizado sem a mega-estrutura que o Jazzmasters tem hoje (imagine o trabalho que deve dar trazer um DJ concorrido por gente como Madonna, Bono Vox e Cameron Diaz). “Quando lançamos o primeiro CD, era tudo independente”, lembra Mai. “Hoje temos o apoio de uma grande gravadora (EMI), além de uma maior força da Eldorado, que nos ajudou muito a contatar artistas e licenciar todas as músicas. Tudo é mais encorpado, da produção ao repertório”.
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Stéphane Pompougnac (Foto: Ricardo Infante) |
Por falar em repertório, como pintou o deste disco? O critério foi o mesmo usado no programa: “escolhemos um black sofisticado e, se for eletrônico, tem que ser um eletrônico com groove. E tudo à flor da pele”, explica Scarpelli. Algo mais? “Nunca tocamos músicas pirateadas ou baixadas; somos defensores dos direitos autorais dos artistas, é tudo música original. Isso complica para o cara encontrar a música e baixar.” Quanto a isso, há controvérsias...
Agora, que o Jazzmasters vol. 2 está nas lojas, com pedradas black que vão desde clássicos a la blaxploitation (Donald Byrd – Think Twice) até a dance music renascida dos Shapeshiters (Lola's Theme), o objetivo da dupla é levar o trabalho adiante. “Se pensamos em uma próxima edição? Pensamos na qüinquagésima!” decreta Mai, bem-humorado.
Por falar em bom humor, o gerente de produção que acompanhava Pompougnac contou uma piada divertida: disse que o DJ não poderia conceder entrevista porque estava tenso demais. Veja as fotos dele na festa e tire suas próprias conclusões.
CD: Jazzmasters Vol. 2
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Fotos: Ricardo Infante |
Repertório comentado:
1. The Shapeshifters – Lola´s Theme (Alternative Mix)
Dance Music com estilão bem anos 90, apesar de lançado já neste milênio
2. Beverley Knight – The Queen Of Starting Over
Soul puro, com ataques de metais a La Motown, malabarismos vocais bem gospel, encorpados e bem aplicados.
3. Stéphane Pompougnac feat Clementine – Morenito
House com tons de bossa nova e acid jazz, mistura batidas e efeitos eletrônicos com violões e vocais suavemente abrasileirados da coreana Clementine.
4. Kelis featuring Cee-Lo – Lil Star
Vocal soul com leve batida eletrônica, puxada do hip hop e um auxílio luxuoso dos vocais de Cee-Lo, em uma cadência que lembra clássicos de Otis Redding e Aretha Franklin
5. Donald Byrd – Think Twice
Funky, funky... Poderia ter sido trilha de um clássico da Blaxploitation (se é que não foi). Faixa do que mais faz jus ao nome “Jazz Masters”
6. Everything But The Girl - Downhill Racer (Kenny Dope Remix)
Batida de Hip Hop clássica, com teclados midi e um vocal que lembra a sumida Des’ree.
7. Faith Evans – Mesmerized
Se as Supremes fossem a banda de apoio de Tina Turner, na virada do milênio, surgiria algo parecido com essa faixa.
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Stéphane Pompougnac com convidada (Foto: Ricardo Infante) |
8. Cassandra Wilson – It Would Be So Easy
Uma das faixas mais grooveadas da cantora de jazz Cassandra Wilson. Aqui, ela virtualmente faz Nina Simone flertar com o Hip Hop.
9. Charlie Hunter Featuring Norah Jones – Day Is Done
A voz cristalina de Norah Jones passeia por essa melodia de blues, esculpida pelo instrumental acid jazz de Charlie Hunter.
10. Corinne Bailey Rae – Call Me When You Get This
Faixa smooth soul do disco de estréia da brilhante Corinne Bailey Rae, que mistura sons acústicos com leves (levíssimos, quase imperceptíveis) toques eletrônicos
11. Van Hunt – Dust
Muito soul, muito jazz e uma pitada de reggae e ska. Um namoro entre o jazz soul moderno e a música Black do Caribe.
12. Bob Belden Project Featuring Jimi Tunnell – Kiss
Imagine o Prince mais eletro e menos afetado. E que, ao invés de guitarra tocasse pick-ups. Melhor do que isso, só com a faixa sendo mesmo do próprio Prince. É o caso, “Don’t have to be rich” em um lounge-house-jazz semi-psicodélico.
13. Róisín Murphy - Let Me Know (Album Version)
Um eletro-funk com vocal jazzy e pitadas de disco music dos anos 80.
14. The Shapeshifters feat Nile Rodgers – Sensitivity
Faixa bem disco (sim, sintetizadores, teclados, luzes, purpurina e afins), com uma pitada excepcional de funk na guitarra base de Nile Rogers.
15. Joss Stone - Jet Lag
Belíssima combinação do Soul clássico com o R&B moderno. Na verdade, a levada traduz a parceria que originou a gravação – a diva da nova geração Joss Stone com a veterana do funky soul setentista Betty Wright.
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