Cultura

Sérgio Roveri

por Sarah Lee, redação ONNE


“É como se o jornalismo me desse uma satisfação da realidade e o teatro me desse uma satisfação da fantasia”


Sérgio Roveri tem vasta experiência como jornalista, cobrindo a área de cultura para veículos como Época São Paulo, Bravo, Diário do Comércio e Imprensa Oficial. Em 2003 começou a escrever peças de teatro e, em pouco tempo de atividade, se tornou um nome respeitado na área. Recebeu o prêmio Funarte de Dramaturgia em 2005 pela peça “Com Vista para Dentro”, o prêmio “Cidadania em Respeito à Diversidade” por “Horário de Visita” e o Shell de Teatro como melhor autor por “Abre as Asas Sobre Nós”.

Sua peça “A Coleira de Bóris”, que concluiu uma bem-sucedida temporada com a companhia Os Satyros, acaba de ser indicada ao prêmio Shell nas categorias Autor, Direção (Marco Antonio Rodrigues) e iluminação. No bate-papo abaixo, Sérgio conta sobre sua relação com as duas profissões, seu processo criativo e a importância da observação do cotidiano; confira!


O jornalista e dramaturgo Sérgio Roveri

ONNE - Você já tinha experiência de escrever sobre teatro; mas e para escrever peças mesmo, teve alguma preparação?

Sérgio Roveri - Fiz vários cursos, até pra tomar coragem pra me sentir mais embasado, mais preparado. Eu sempre gostei de teatro, e quando comecei no caderno de Variedades do Jornal da Tarde, mais ou menos em 2000 fui me aproximando mais de leitura de texto, de ver ensaio, de falar com diretor e ator, e chegou uma época que eu falei “pô, acho que vou tentar entrar nesse universo”. Fiz vários cursos de dramaturgia, de direção, história do teatro, técnica dramatúrgica, composição de personagem; passei uns 2 ou 3 anos estudando e paralelo a isso eu comecei a escrever mesmo, empregando as coisas que eu estava aprendendo.


ONNE - Você que trabalha nas duas áreas, vê alguma semelhança entre jornalismo e dramaturgia?

SR - Pra mim tem muita; eu acho que se eu não fosse jornalista e não tivesse trabalhado tanto tempo como jornalista, como repórter, principalmente, a minha dramaturgia seria diferente, eu acho. Aliás, tenho certeza, tem muita lição que eu aprendi com o jornalismo e levei pra dramaturgia.

 
ONNE - O que, por exemplo?

SR - Concisão de texto; no jornalismo às vezes você tem que colocar o máximo de informação em um espaço muito pequeno; então não enrolar, não fazer o famoso nariz de cera, já ir direto para aquilo que os personagens têm a dizer. E a outra coisa é a observação, o poder de criar imagens no texto, além de colocar na boca dos personagens alguma coisa que faça com que o público visualize aquilo: alguma informação a respeito do local, de sensações, isso eu acho que também é uma coisa do jornalismo, essa observação do cotidiano. Às vezes você vai fazer uma matéria e vai falar de um acidente, você nunca fala só do acidente, vai falar de como estava a rua, as pessoas que estavam vendo, tem que ambientar o fato dentro de um cenário.


ONNE - Você costuma conversar com os diretores na hora da montagem das suas peças?

SR - Nunca; pra não falar que nunca, só uma vez, que eu acompanhei mais de perto o trabalho, mas é uma coisa que eu sinceramente não faço questão, o ensaio é um momento de criação do diretor. Se ele pedir a minha ajuda, eu vou com o maior prazer, mas eu nunca me ofereci. Várias peças minhas, como o Andaime, agora a Coleira de Bóris, eu vi na estréia como todo mundo, eu vou como qualquer outra pessoa do público que não sabe o que vai encontrar. E eu gosto disso, eu sei que é um risco muito grande, mas eu acho também que eu tive muita sorte, tenho trabalhado com gente muito bacana: o Marcão (Marco Antonio Rodrigues), por exemplo, é um cara tão bom, tão reconhecido, as coisas que eu já vi dele sempre me agradaram tanto, eu fico pensando “O que eu posso falar?” (risos). Mesmo o Elias Andreato, que dirigiu o Andaime, é um cara tão sensível, tão querido, já fez tanta coisa como diretor, ator, eu tenho é que deixar ele criar e depois eu vou ver, torcendo pra que eu goste.


Cena de "A Coleira de Bóris"

ONNE - Como acontece a aproximação com o diretor?

SR - Cada caso é um caso. Por exemplo, o Andaime eu mostrei o texto pro Cláudio Fontana, que é o ator que fez a peça, ele gostou, produziu e convidou o Elias Andreato pra fazer a direção. Agora, no caso da Coleira, um ator encomendou o texto pra mim e convidou o Marco Antonio para dirigir. Então pode acontecer de três maneiras, ou você já começa a fazer o projeto com o diretor, como o “Abre as Asas sobre Nós”, que eu convidei o diretor pra fazer. Outra maneira é entregar pro ator e ele convidar o diretor. E uma terceira maneira é quando um diretor lê um texto seu, gosta e te procura.


ONNE - Você falou que o Coleira de Bóris foi encomendado; quem foi que encomendou?

SR - Foi um dos atores da peça, o Nicolas Trevijano. Ele já tinha visto umas três peças minhas e falou que gostaria de trabalhar comigo, veio na minha casa e perguntou se eu tinha uma coisa inédita. Eu tinha a idéia, a Coleira de Bóris tinha nove páginas, era um texto que eu tinha começado e parado, e dei pra ele ler. Ele leu na hora e falou “Olha cara, pra mim é isso. Não sei pra onde vai, não sei o que vai dizer, mas esse começo me interessou muito. Se você continuar, eu vou levar isso adiante”. Então foi uma encomenda, a idéia não, que eu já tinha, mas o texto estava parado e ele pediu que eu continuasse.


Cena de "A Coleira de Bóris"

ONNE - Como você escolhe a temática das peças, de uma coisa do cotidiano ou da sua imaginação?

SR - É um pouco das duas coisas; no caso da Coleira, eu tive a idéia a partir de uma história de uma mulher, uma empregada doméstica de Belo Horizonte, negra, jovem, que pegou todas as economias da vida e deu pra um mexicano que ia atravessá-la pros Estados Unidos, mas foi presa na fronteira. Eu fiquei com essa idéia na cabeça, do tamanho desse sonho de imaginar um futuro melhor pra você em um lugar tão longe, a ponto de correr todo esse risco. A Coleira de Bóris nasceu a partir daí, não é essa história que a gente está contando, tanto que nem tem mulher na peça, mas é essa idéia mais ou menos. Mas às vezes vem de outras coisas, de uma inspiração, de uma observação do dia-a-dia, um fato da infância. Dessas 12 peças que escrevi, nove são inspiradas em fatos reais, coisas que eu vi, que me contaram, que de alguma maneira marcam. Mas nunca é na hora, isso que eu acho engraçado. Alguém me conta, eu falo “putz, que coisa legal” ou “que coisa chata”, enfim, mas depois de um tempo, três, quatro meses, essa história começa a ganhar corpo, como uma sementinha.


ONNE - Você tem uma peça preferida entre todas as que escreveu?

SR - Não tenho; eu tenho carinho por todas. Às vezes tem umas situações que continuam sendo mais atuais, por exemplo A coleira de Bóris vai ser uma peça que se for apresentada daqui a 10 anos e pra frente, não vai estar datada, as pessoas ainda vão ter ilusão, vão querer acreditar que existe um lugar em que vão poder ser mais felizes. Mas as outras também, a Andaime, que fala da solidão urbana, é um tema que vai acompanhar a gente bastante.


ONNE - Você parece ter começado na dramaturgia de um jeito bem despretensioso, as premiações te surpreenderam?

SR
- Um pouco, porque eu acho que fui muito abençoado, sem sacanagem, porque faz cinco anos que eu comecei a trabalhar com teatro. Mas eu acho que como eu não comecei cedo na vida, eu já estava um pouquinho mais maduro, num momento em que a gente sabe dizer melhor as coisas; não que a gente entenda do que está falando, mas a gente tem um pouco mais de facilidade pra falar. A experiência profissional, as coisas que você vê, acho que ajudam na hora de você se comunicar, mas que tem a surpresa, tem.


ONNE - Você acha que daqui pra frente vai continuar equilibrando as duas profissões?

SR - Olha, eu não sei, com o teatro eu tenho quase certeza que não vou parar mesmo, virou uma necessidade maior que o jornalismo; hoje não vejo como eu ter uma satisfação profissional não sendo pelo teatro. Eu digo que o teatro foi mais generoso comigo do que o jornalismo (risos). O jornalismo foi bastante também, me manteve e eu adoro, mas o teatro foi mais generoso, e em cinco anos me deu mais do que o jornalismo em 15. Mas o jornalismo também me deu coisas ótimas, os amigos, respeito, me aproximou de gente a que eu não poderia chegar se não fosse repórter, como o Paulo Autran, Eduardo Tolentino, e tantos outros. Não teria como ir na casa do Paulo Autran a menos que fosse entrevistá-lo. Eu fiz duas entrevistas grandes com o Antunes Filho; às vezes passar duas horas falando de trabalho com Antunes Filho equivale mais do que ver um livro de dramaturgia. Então eu não tenho vontade de parar com isso, porque eu acho que jornalismo vai me aproximar de gente bacana, vai render coisa legal, que eu preciso ouvir, vai me contar experiências de vida. Da mesma maneira como o teatro me traz uma satisfação muito grande, o jornalismo também me dá, por um outro lado. É como se o jornalismo me desse uma satisfação da realidade e o teatro me desse uma satisfação da fantasia.




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