Entrevista

Pregão hospitalar

por Cesar Giobbi


Maurício Barbosa fala sobre a Bionexo, a empresa que facilitou as compras feitas pelos hospitais


Maurício Barbosa, criador da Bionexo, que facilita as compras de hospitaos pela internet

As compras on line estão mudando atitudes no meio empresarial e governamental. Governos de Estados e municípios, e mesmo o governo federal, têm adotado o pregão eletrônico para compras, o que resultou em transparência e queda de preços. O universo da medicina tem ao seu dispor, desde o começo da década, um jeito de fazer compras on line, sem a necessidade do pregão.  Trata-se de uma comunidade de compras, onde a empresa coloca sua demanda, com data para receber propostas, que só estão disponíveis para ela, evitando o leilão.  E os fornecedores são cadastrados e têm documentação sanitária controlada. Sem intermediários, sem comissões, sem lobbies. E ainda, com poder de barganha para conseguir até a mudança de embalagens.  Isso tudo foi possível desde a criação da Bionexo, de Mauricio Barbosa, em 2000.

A entrevista com Mauricio Barbosa foi feita no começo da semana, ainda no auge do impacto da crise financeira internacional. Portanto, o começo da conversa foi sobre isso. Barbosa não pareceu particularmente aflito com a situação: “ Não estou pessimista, mas estou atento. Eu sempre penso que, para achar o melhor caminho, é preciso pensar no pior. No Brasil, em tempos de crise, a saúde é a penúltima opção que se as pessoas escolhem para economizar.  A última é a alimentação. Na saúde, elas mudam o plano de assistência médica, passam a comprar o genérico, adiam uma cirurgia. No mundo empresarial, é a hora em que se suspendem projetos, adiam importações, um momento de rever contas e orçamentos”,  comenta Barbosa.  E é por aí mesmo.
Como surgiu a Bionexo? “Eu resolvi criar a empresa em 2000, no boom da internet. Em 2001, com a queda da Nasdaq, investidores financeiros saíram. Aí, entraram investidores privados. A idéia era nova. Era preciso mudar o conceito de compra do medicamento, ou do equipamento médico. A indústria farmacêutica sempre trabalhou a partir do convencimento do médico, vendendo através de intermediários que recebem comissões.  Com a entrada no mercado desta novidade, uma comunidade de compras, a questão passou a ser o convencimento dos hospitais”, conta ele.


Barbosa trabalhou 13 anos em laboratórios
Como funciona o sistema de compra via esta comunidade na internet? Barbosa explica: “Basicamente, o hospital precisa comprar medicamentos, ou equipamentos, ou luvas, qualquer coisa. Essa informação, com quantidades e especificidades é distribuída para hoje cerca de 3 mil fornecedores, com data para responder. A informação do fornecedor  só é vista pelo comprador. Só ele, portanto, pode comparar os preços, que são sempre do produto colocado no hospital. E aí escolhe. Nem sempre escolhe o mais barato. Leva em conta os fatores que lhe interessarem.  Mas as informações e as escolhas ficam registradas.  Podem ser lidas a qualquer momento. As auditorias se beneficiam muito disso. Podem pedir explicação sobre qualquer compra ou escolha. Todo o processo fica exposto, transparente. E qualquer comportamento diferente é rastreado”.
Barbosa dá um exemplo, viajando pelo site, mostrando as páginas de compra em seu laptop: “Esse hospital precisava de uma quantidade pequena de aspirinas e colocou seu pedido. Os preços que surgiram variaram de R$ 4,92 a R$ 142,50. A variação de preço é grande,porque leva em consideração se são genéricos ou marcas que têm patentes. Ele escolheu a de R$ 115,00, porque é a marca em que mais confia. Mas está lá registrado. E a auditoria pode pedir explicação”.
Hoje já são 280 hospitais que usam este serviço no Brasil, mas 50 hospitais na Argentina, dois em Barcelona onde a Bionexo entrou há pouco tempo. No México, a empresa chega no ano que vem.  São hospitais privados e os públicos que são administrados por organizações sociais. Entre eles, para dar um exemplo, Einstein,  9 de Julho, Santa Catarina, São Camilo. Ou empresas de seguro saúde como Amil,  Intermédica, Amesp.  “Com esse sistema de compras pela internet,  os hospitais têm me garantido que fazem uma economia de, no mínimo, 13%. Alguns chegam a 30%”, afirma Barbosa. Com isso, em 2008, a Bionexo movimentará um total de R$ 1 bilhão em transações realizadas por meio de sua plataforma eletrônica, o que representará mais de 60% de crescimento com relação ao ano passado, que teve um aumento de mais de 30% sobre o anterior. Portanto, curva ascendente, num processo que parece irreversível, dadas as vantagens para o comprador.
O sucesso depende do empenho dos hospitais. Depois de convencidos a passar a comprar via Bionexo, eles precisam convencer seus fornecedores a participarem destas tomadas de preço. “ Há dois tipos de fornecedores, os que nos amam e os que nos odeiam.  Estes últimos eram os fornecedores clássicos, que passaram a ter concorrentes. Em compensação, via internet, passaram a fornecer a novos hospitais. Hoje os que nos amam são maioria.  O diretor de um hospital do Ceará me disse que a Bionexo o ‘libertou’, já que antes dependia de meia dúzia de fornecedores locais, e hoje fala com o País todo”, conta Barbosa.
E por que a escolha do universo da saúde? Afinal, uma comunidade destas pode funcionar em qualquer outro setor.  Barbosa  conta: “É que eu venho da indústria farmacêutica. Trabalhei 13 anos com a Merck, Sharp & Dohme MSD. Portanto, conhecia o lado do player vendedor.  Que também ganha neste processo, pois elimina gastos de visitas, papel, fax”.
O serviço extrapolou o mundo da medicina. “Hoje, o serviço está aberto para tudo. O hospital pode comprar desde alface até material de limpeza. O Einstein, quando montou o Hospital do MBoi Mirim, comprou equipamentos e insumos e conseguiu montar tudo em 30 dias, graças à Bionexo.  Até o final de 2008 incluiremos cotações internacionais dos mercados onde atuamos.  Até de produtos americanos ou suíços. Desde que não haja barreira regulatória, como por exemplo lençóis hospitalares”, diz o empresário.
Um fator importante nesse mercado é a confiabilidade.  A Bionexo faz um controle rigoroso dos fornecedores, sobretudo da área médica, para saber como anda sua documentação na Anvisa.   Aparece tudo. Se estão com alguma documentação vencida, a exposição na internet os obriga a se atualizarem.
E como é que a Bionexo ganha com esse serviço, já que não há comissão? “A gente cobra um valor de implantação do sistema, e cobra uma mensalidade fixa. Só isso. Em geral, quem contrata esse serviço é o número 1 da empresa. A escolha vai de cima para baixo, e tem a ver com a estratégia da empresa, sua competitividade.  Um cliente recente demorou 8 anos para assinar”, conta Barbosa.
O novo projeto é o universo público. “Devemos lançar, em 2009, uma ferramenta pública. Seria o pregão eletrônico, adicionando outras modalidades, como dispensa de licitação até um valor X”, conta Barbosa, que hoje está em Canela, no Rio Grande do Sul, no meio de uma reunião do conselho gestor da Bionexo, onde será apresentada uma proposta de ação social integrada: “Pretendemos criar um instituto para atender crianças que estão na fila do SUS para cirurgias. Vamos, através da nossa plataforma de clientes, convencer esses quase 300 hospitais a atenderem estas crianças”,  antecipa o empresário.  



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