Entrevista

Madeira certificada

por Cesar Giobbi


Etel Carmona fala sobre a criação de móveis com manejo sustentável da floresta



A designer e fabricante de móveis Etel Carmona, uma especialista em madeiras brasileiras,  sempre foi  uma guardiã da floresta. Só que, agora, ela o é oficialmente: ganhou uma concessão para fazer manejo sustentável numa floresta federal de 48 mil hectares em Rondonia.  Etel  me conta isso enquanto mostra sua coleção 2009, apresentada a convidados  ontem à noite em sua loja da Gabriel Monteiro da Silva.
Aranha criada pelo joalheiro Carlos Apolônio
A coleção reflete, mais uma vez, a preocupação de Etel com a preservação da natureza e a sustentabilidade. Tanto que, em peças de madeira como vasos, urnas, garrafas, ela adicionou pequenos insetos de prata, ouro envelhecido e pedras brasileiras, desenvolvidas pelo joalheiro Carlos Apolonio, para as pessoas se lembrarem que, derrubando a floresta, vão acabar com a fauna também.
Mas voltando à floresta: “Eu já trabalho com manejo sustentável no Acre, na reserva Chapuri, terra de Chico Mendes, há cerca de oito anos. Não diretamente. La há ONGs de seringueiros que fazem o manejo. Eu compro a madeira certificada deles, e mantenho no local uma fábrica que emprega artesãos locais. Procuro madeiras, desenho e produzo móveis e sobretudo objetos. Nessa minha oficina, tenho ferramentas e equipamentos de última geração. Os artesãos locais trabalham com o que há de mais moderno”, conta Etel.

A marchetaria da mesa árvore
E sobre Rondonia: “O manejo sustentável numa floresta nativa não envolve plantio. E só se pode derrubar  uma árvore adulta, desde que num raio de 200 m² ela tenha uma filha e uma neta.  Na verdade, quando se tira uma árvore destas,  de 30m ou 40m de altura, há centenas de mudas de árvores, que não conseguem crescer à sua sombra, e que vão virar árvores grandes. O manejo também  é isso, uma árvore tomba para muitas outras poderem crescer. E só se volta ao mesmo local depois de 30 anos. A madeira é para ser usada, desde que com responsabilidade”, explica Etel.
O trabalho e o interesse de Etel Carmona virou um “case”.  Faz obras de arte com sobras de madeira. Em sua nova coleção, por exemplo, praticamente tudo o que é desenhado por ela ou por Claudia Moreira Salles é feito aproveitando pequenos pedaços de madeira. Portas de aparadores ou encostos de poltroas parecem parquês. Marchetaria enfeita uma mesa de centro.  Um tampo redondo de mesinha lateral combina um rachado natural com um bisotê como acabamento.  “O manejo é apenas parte do negócio. Sozinho, ele não é negócio. É preciso agregar valor. É assim que a sustentabilidade chega à floresta.  Se o seringueiro percebe que pode viver da floresta, ele não vai deixar que a derrubem para plantar ou criar boi”, garante Etel. Além do mais, ela traz os artesãos para sua fábrica de Valinhos, para capacitá-los e os devolve. Eles querem voltar? “Todos querem voltar.  Quem mora na floresta só sai para sobreviver. Mas eles não gostam nem de ir a Rio Branco, quanto mais São Paulo.  Quando percebem que podem viver da floresta, viram seus guardiões”.

Cadeira siri
E esses textos que a gente lê na internet, em que se noticia que só se ouve falar alemão, inglês e holandês na floresta, e que as ONGs nacionais estão entregando a floresta a estrangeiros? Etel garante: “No Acre, só conheço ONGs sérias. Quando vou para lá não vejo nada disso de estrangeiros por todo lado comprando madeiras. Acho uma conversa alarmista. No Acre e no Amazonas, pelo menos, isso não existe” . Etel sabe do que fala. Vai para lá praticamente todo mês e passa uma semana. Já dormiu em rede, em casa de seringueiro. Agora há uma pousadinha simpática na região. Depois volta e corre para o dermatologista e o cabeleireiro, porque, apesar de adorar o mato, se confessa muito vaidosa.
O que está exposto na loja tem várias procedências: o que é desenvolvido por ela com os artesãos de Chapuri;  e o que os designers paulistas como Claudia Moreira Salles, Isay Weinfeld, Lia Siqueira ou Dado Castello Branco e a própria Etel desenham e ela fabrica em Valinhos. Há as reedições de clássicos: de Gregori Warchavchik, desenhos dos anos 30; da Branco e Preto (Forte, Aflalo, Ruchti, Croce, Milan), dos anos 50; de Jorge Zalzupin, dos anos 60, e agora de Ricardo Fasanello, dos anos 70. E há uma mistura: Cláudia Moreira Salles acaba de produzir luminárias misturando estruturas de alumínio e peças de madeira feitas pelos artesãos de Chapuri.  Além disso, as novas peças são acrescentadas a um acervo  que tem tudo o que Etel já produziu.  Ou seja, as peças continuam em catálogo e podem ser produzidas. Todas as peças têm histórico arquivado. Mas de dois anos para cá, elas vêm com um número que é o seu DNA: ele conta sobre a madeira, onde foi comprada, o ano de produção, quem foi o designer, o artesão, e quantas unidades foram produzidas daquela peça.

Poltrona gaivota
Tudo o que Etel produz tem uma personalidade.  Quando se entra na loja, parece que tudo o que se vê sai da mesma cabeça. Não é assim, mas as cabeças criadoras estão todas sintonizadas. “Eu não faço moda. Meu móvel é atemporal. A coleção atual, como as anteriores, não têm tendência, têm conceito”, diz Etel.
O primeiro ateliê de Etel abriu em 1984. A fábrica de Valinhos, em 1988. E o primeiro show-room, em 1993. O designer Fulvio Nanni a descobriu em 1986. Ela produzia para ele, mas também ajudava a dar solução a peças.  Foi ela que lhe mostrou as madeiras brasileiras. Etel começou a desenhar a partir de então. Fez experimentos com pigmentações. Fez até curso em Yale. Mas já tinha bom olho para escala, proporções, estética e funcionalidade.  Em 1994/95 a FFC, instituição internacional que certifica o uso de florestas tropicais, com sede em Bonn, começou a levá-la para a Amazonia como adviser e divulgadora. Até que, em 1999, Jorge Viana, o governador eleito do Acre, que propunha o “governo da floresta”, mandou buscá-la e lhe apresentou o projeto de Chapuri.

A formiga de Carlos Apolônio
Hoje a equipe de Etel em São Paulo e Valinhos sabe de cor tudo sobre sustentabilidade. As filhas Lissa e Camila trabalham com ela. Todos conhecem de cor no mapa do Brasil as áreas de desmatamento certificado. Assim, quando compram, sabem a procedência.  E o mestre de Etel conhece maderia como ninguém. Não usa nenhuma antes de 3 anos de secagem. Prefere até esperar 6 anos. É totalmente contra a estufa, pois diz que ela quebra as fibras; trinca quando tira a umidade com o calor.
Só madeiras nobres? “Toda madeira é nobre”, lembra Etel. “Uma é melhor para por no chão, a outra para fazer móveis, a outra para o telhado. Mas toda é nobre. Aquela história de madeira de lei é coisa do tempo da colônia. Havia reserva de algum tipo de madeira para mandar para Portugal.  Mas toda maderia tem seu valor e sua utilidade”.



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