Variedades
O ganzelão
por Léo Coutinho
No ponto de ônibus do Viaduto Brigadeiro, uma conversa sobre as diferenças entre o Norte e o Sul
As coisas podem acontecer em qualquer lugar, mas é claro que elas preferem acontecer em São Paulo. Hoje, por exemplo, me aconteceu uma daquelas de dar gosto de viver aqui.
No Viaduto Brigadeiro há um ponto de ônibus muito bonito, simpático e funcional. É daqueles vermelhos como a Cruz de Malta da nossa bandeira, e que são uma das raras boas heranças deixadas por uma ex-prefeita. Neste ponto, que não é um terminal com variados boxes de serviços, funcionam três camelôs que atendem aos passageiros que aguardam as grandes naves. O primeiro, confesso, me incomoda. É o vendedor de espetinhos na brasa. Tem carne de boi, frango, linguiça e a inexorável farinha que reveste o produto antes do consumo. Nunca comi e portando não posso avaliar. Mas a fumaça é grossa a ponto de poder ser dividida com as mãos, da mesma maneira que alguém já fez com a neblina londrina. O fato de eu não gostar não muda nada: o povo adora.
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Os espetinhos que nunca experimentei |
O segundo é o do milho verde. As espigas cozidas e servidas na palha já não fazem sucesso. Hoje todo mundo quer num pratinho de plástico, do mesmo jeito que as crianças comem na praia. E tome margarina. Do milho verde ele também serve a pamonha e o curau geladinho – deste eu também nunca fui freguês, donde só sei que o curau é geladinho por dedução, já que ele fica num isopor.
O terceiro é a bomboniere, que além de doces ofereces salgados secos e refrigerantes. Desta eu sou freguês. A proprietária é uma senhora muito simpática a quem todos tratam por Tia. Ela tem aquela bala de goma colorida que vem numa embalagem cilíndrica. De vez em quando eu compro para adoçar a lembrança de meu avô Chico, que gostava muito delas. Mas minha presa predileta é o amendoim japonês. Este me lembra o serviço de bordo da velha Varig, que era impecável e estava sintetizado no salgadinho. Aliás, o amendoim japonês da Varig era, até esta descoberta, o único que eu gostava. Ásperos no tato e leves na digestão, eles massageavam os pensamentos do passageiro com o estalar das cascas mastigadas. Para mim hoje eles fazem parte do serviço de bordo do Consórcio 7, embora o valor do bilhete não comporte o brinde nem o salário de uma aeromoça gaúcha para saudar os viajantes.
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Amendoim japonês me faz lembrar do serviço de bordo da Varig |
Mas ontem, quando eu cheguei, a Tia não estava. Em seu lugar trabalhava um senhor, o Farias, um cearense provavelmente seu marido, que obviamente enxergou em minha silhueta uma oportunidade de negócios. Foi logo tirando o pedido:
- O que vai ser hoje, patrão?
Agradeci e expliquei-lhe que nada; que estou tentando maneirar. Ele não insistiu. Pelo contrário, me incentivou:
- Melhor maneirar do que acabar tendo que cortar uma parte do bucho.
Eu ria, e ele continuava:
- Uma vez eu enfiei na cabeça que precisava ter uma barrigona, ficar assim bochudão; então comia, comia, comia sem parar; mas não gostei não, e emagreci tudo de novo.
Não resistindo à curiosidade, perguntei o que ele queria com a barriga. E ele:
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Vem cá, meu gazelão... |
- Andar de carro, igual rico; pode ver como é bonito o rico barrigudo sentadão num carro, com um braço apoiado na janela.
Expliquei que eu subiria e desceria a Brigadeiro até saltar em frente a um supermercado, cujo dono é tão rico quant o magro. E ele:
- Pois é, mas essa minha idéia vem lá do norte, lá a gente sempre acha que bonito e rico é o gordo; lá é tudo diferente.
Ao nosso lado um terceiro escutava tudo quieto, até que resolveu apartear:
- Está certo, lá no norte é tudo invertido. Aqui no sul para namorar a moça quer um cabra alto, lá só baixinho tem vez. O alto lá elas chamam de ganzelão, vara-pau. Por isso eu vim pro São Paulo - este cidadão, vale registrar, não chegou muito além do 1,70m.
Quando chegou o momento do embarque, entrei em conflito e assim estou até agora. Não sei se aproveito o que disse o Farias e vou exibir minha circunferência no agreste, ou se fico por aqui, onde as moças gostam mesmo é de homem alto. E que implicância boba a desse sujeito... Imagina que coisa boa a namorada dizendo assim:
- Venha cá me fazer um dengo, meu ganzelão.
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1 COMENTÁRIO
Barão
Léo, Acho que vc deveria experimentar o churrasquinho grego da praça do correio. Te faço companhia.. Gordo abraço
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